Nossa Senhora da Cristandade
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Ponto de Partida

Nazaré

No alto do promontório do Sítio da Nazaré, ergue-se um dos mais antigos e venerados santuários marianos de Portugal — centro de devoção profundamente ligado ao mar e à vida das gentes locais.

No alto do promontório do Sítio da Nazaré, de frente para o imenso Atlântico, ergue-se um dos mais antigos e venerados santuários marianos de Portugal: o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. A sua história mistura tradição, fé e milagres, sendo um centro de devoção profundamente ligado ao mar e à vida das gentes locais.

A Lenda e o Milagre de D. Fuas Roupinho

A tradição conta que, na manhã de 14 de setembro de 1182, dia da Exaltação da Santa Cruz, o alcaide de Porto de Mós, D. Fuas Roupinho, cavalgava envolto em nevoeiro junto ao penhasco do Sítio, quando avistou uma corça e se lançou em perseguição. Sem se aperceber, aproximou-se perigosamente do precipício. Nesse momento, invocou com fervor a Virgem Maria, cuja pequena imagem se venerava na região. De forma milagrosa, o cavalo estacou junto à beira do abismo, salvando a vida do cavaleiro.

Em agradecimento, D. Fuas mandou erguer no local uma pequena ermida sobre a gruta onde se encontrava a imagem da Virgem com o Menino, conhecida como «Nossa Senhora da Nazaré». Até hoje, junto à antiga capelinha, conserva-se a lendária marca da pata do cavalo gravada na rocha, testemunho da devoção e memória do milagre.

A Imagem e a Sua Origem Antiga

A devoção a Nossa Senhora da Nazaré tem como centro uma pequena e antiquíssima imagem de madeira, de traços simples, mas profundamente simbólicos. A tradição cristã relata que a escultura representa a Virgem Maria amamentando o Menino Jesus — motivo pelo qual é conhecida como «Virgem do Leite». De acordo com a tradição piedosa, a imagem teria sido originalmente esculpida por São José, durante a infância de Jesus, e pintada mais tarde pelo evangelista São Lucas.

Nos primeiros séculos do cristianismo, a imagem permaneceu na Terra Santa, sendo depois levada para um mosteiro na Palestina. No século IV, por ocasião das perseguições iconoclastas e da ameaça de destruição dos ícones sagrados, o monge Ciriaco terá transportado a imagem para a região do Norte de África, entregando-a a São Jerónimo e, mais tarde, a Santo Agostinho, bispo de Hipona. Daí passou para o mosteiro de Cauliniana, próximo de Mérida, em Espanha.

Com a invasão muçulmana da Península Ibérica no início do século VIII, a imagem foi escondida para a proteger. O último rei visigodo, D. Rodrigo, derrotado na Batalha de Guadalete (711), fugiu acompanhado de um monge chamado Frei Romano. Juntos trouxeram a imagem e ocultaram-na numa pequena gruta, junto ao mar, no alto de um promontório — o que hoje conhecemos como o Sítio da Nazaré. Ali ficou guardada e esquecida durante vários séculos até ser redescoberta no tempo de D. Fuas, dando origem à devoção popular.

Do Ermitério ao Santuário

A pequena ermida construída por D. Fuas rapidamente se tornou lugar de peregrinação. A devoção cresceu tanto que, já no século XIV, no reinado de D. Fernando I, foi edificado o primeiro templo maior, que viria a ser o núcleo do actual Santuário.

No século XVII, o edifício foi profundamente remodelado e ampliado, adquirindo o traçado que hoje conhecemos, com a sua bela fachada barroca e duas torres sineiras. No interior, destaca-se o retábulo do altar-mor, onde a antiga imagem de Nossa Senhora da Nazaré continua a ser venerada com grande piedade.

Durante séculos, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré foi uma das principais devoções marianas do centro de Portugal, atraindo peregrinos de todas as regiões do país e até do estrangeiro.

Numerosos milagres são atribuídos à intercessão da Virgem da Nazaré, especialmente entre as gentes do mar, que levavam uma vida árdua e arriscada. A entrada da barra da Nazaré era (e continua a ser) perigosa, com vagas violentas e correntes traiçoeiras. Quando havia naufrágios ou sinais de perigo no mar, as mulheres dos pescadores subiam ao promontório do Sítio e rezavam ardentemente pela proteção dos seus familiares, muitas vezes de joelhos ou prostradas diante da imagem.

Nazaré — Peregrinação de Nossa Senhora da Cristandade